Distraída, eu vejo um Rio de Janeiro que nem todos os passantes podem ver. Enquanto aguardo o sinal fechar na esquina da Avenida Rio Branco com a Rua Buenos Aires, aprecio os relevos em forma de vaso de flor do antigo edifício cor de vinho. Vejo as sombras que os portões das casas projetam nas calçadas do meu querido bairro Grajaú. Da janela do ônibus, me delicio[1] com as platibandas, cartelas e elementos decorativos das velhas casas do Catumbi.
Foi justamente por uma janela de ônibus que eu conheci meu primeiro reflexo, ainda criança. No Viaduto Carlota Joaquina, entre os bairros Botafogo e Urca, há o Mourisco, um prédio espelhado que nos revela uma construção antiga escondida no Morro do Pasmado. Passar por ali e não olhar para aquele reflexo era (e ainda é) um desperdício, uma viagem perdida. Sou muito observadora, sempre gostei de me perder nos pequenos detalhes da cidade que me era oferecida, onde os caminhos eram mais impactantes e importantes que os destinos.
Como eu tinha consciência de que era apenas uma criança e nada poderia fazer, olhava sempre quando passava pelos lugares que cultivei um carinho, para ao menos poder lembrar como eram, quando eu crescesse. Mudei pouca coisa de lá pra cá. A diferença entre aquela época e hoje é que tenho certa autonomia para escolher os percursos, e a possibilidade de ter uma câmera fotográfica no bolso.
[1] Escrevo no tempo presente, pois assim que essa pandemia de Covid-19 tiver fim, voltarei à minha rotina de entrar no ônibus e sentar do lado esquerdo na ida, e lado direito na volta.

Muito bom todo o texto e a história de conclusão, também aguardo essa maldita pandemia acabar,em quanto isso estamos em um sistema de quarentena e preservação pra que no futuro possamos voltar a viver como deve ser 🤟🏼
ResponderExcluirObrigada pelo seu comentário, Tati! Sim, viver como deve ser!! 🤗
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