O carnaval sem quarta-feira de cinzas, que acontece apenas dentro de mim



Sou filha de uma mulher que foi passista do Salgueiro na década de 1970. Durante a minha infância frequentei aqueles bailinhos de carnaval em clubes de bairro. Durante um bom tempo a minha noção de carnaval era apenas o desfile das escolas de samba (pela tevê) e os bailes à fantasia dos clubes.

Um belo dia, quando eu tinha 19 anos, tudo mudou. Vestida de Chapeuzinho Vermelho, conheci o carnaval de rua com uns amigos. Ficaríamos apenas no entorno do Centro da Cidade. Como a turma toda estava fantasiada, tínhamos a liberdade de rir dos outros foliões, e eles de nós. Na Cinelândia vimos um palco montado, e nos divertimos ouvindo marchinhas quando nos deparamos com uma senhorinha que saiu diretamente dos livros e almanaques históricos: testemunhamos a Rainha do Rádio Emilinha Borba ali, cantando para nós. Depois da apresentação, caminhamos pela Avenida Rio Branco e demos de cara com o desfile do Cacique de Ramos. Aquele mantra que vai entrando na cabeça da gente cada vez que o versos são repetidos, a coreografia, a animação contagiante. Aquilo me pegou e eu nem tinha me dado conta.

O tempo em que vivi fora da cidade me ensinou a valorizar sua memória, seus lugares e seus eventos. Voltando, retornei também ao carnaval de rua. Se antes eu usava a festa como licença poética para me vestir do que eu quisesse, hoje eu a vejo por sua(s) história(s), seus personagens, seus espaços. Minha relação se tornou afetiva e identitária. Ser plateia do patrimônio imaterial chamado Cacique de Ramos é ver o Partido Alto e o batuque. Contemplar os carros alegóricos sendo montados ao longo da Avenida Presidente Vargas é viver os desfiles pré-Sambódromo da minha mãe, e depois pedir a bênção da Tia Ciata lá na Praça Onze. Inventar fantasias para participar de blocos é rememorar o entrudo, os corsos, os ranchos e os bailinhos infantis com serpentina e confete.

Salve Hilário Jovino Ferreira, que transferiu o desfile dos ranchos do Dia de Reis para o dia de Carnaval, dando origem a essa bagunça gostosa que nos faz sentir correr o sangue nas veias. Salve Tia Ciata, matriarca, partideira, que permitiu a essa festa ter uma família e um lar. Salve Ismael Silva e o Estácio, que inventaram o samba de sambar pra gente poder se acabar de uma forma só nossa.

Esse ano não tem fanfarra nem marchinha. Não tem águia da Portela, nem bateria da Mangueira, nem os Sorrisos da porta-bandeira Selminha e do gari-passista Renato, muito menos o centenário desfile do Bola Preta. Esse ano só tem a memória de tudo o que é inesquecível.

Deborah O. Lins de Barros

Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de 2021.

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