Um 434 cor de laranja


Eu sou uma pessoa que circula pela cidade usando o ônibus como meio de transporte. Brinco que, se um dia eu tiver carro, vou continuar fazendo os mesmos caminhos. Sei de cor alguns itinerários, e já me diverti no Google Street View com isso. Desde o início da década de 1990 acompanho com os olhos tanto meus “pontos turísticos”, como também alguns detalhes dos próprios ônibus, que vão modificando ao longo do tempo.

Lembro dos assentos, que tinham uma textura de tatame sem divisória e um encosto de cabeça que era roliço, encaixado numa barra horizontal que servia de apoio para quem sentava no banco logo atrás e para quem viajava em pé. O piso do ônibus era todo prateado, com vários pequenos agrupamentos de listras, com uma função antiderrapante que falhava muito. Eu gostava daquele chão, daquela espécie de padronagem. Um detalhe que sentirei falta para sempre era a forma de entrada no ônibus, que era pela porta traseira, onde estavam o cobrador e a roleta, e saíamos pela porta dianteira, próxima ao motorista.

Durante a minha adolescência acompanhei a mudança das cores de diversas linhas de ônibus. 226 era azul escuro; 422 era branco e vermelho; 432, 433 e 438 tinham um vermelho alaranjado; 571 e 572 tinham uma combinação harmônica de azul, vermelho e bege; 434, 435 e 464 eram cor de laranja. Esses últimos se tornaram azul claro e branco, o que passou a fazer certo sentido, já que a empresa chamava-se Estrela Azul. Parte da identidade visual da cidade, porém, foi alterada.

Uma vez escrevi um poema, quando eu estava para me mudar do Rio para Santa Catarina, em 2005. Eu dizia sobre a saudade que sentiria do Rio, uma saudade que já havia, uma saudade da época que o ônibus 434 era cor de laranja. Quando voltei a morar no Rio, depois de mais de cinco anos, as linhas de ônibus já tinham mudado de cor mais uma vez. Tão sem graça ver uma cidade menos colorida, com ônibus quase monocromáticos. Depois de uns anos, a própria Estrela Azul entrou em falência. A linha 464 deixou de circular, mas os meus 434 e 435 foram adotados por outras empresas.

Desde o ano passado, para evitar aglomerações, não ando mais de ônibus, e sinto falta do ponto de vista que eu tinha da cidade, transitando por ela quase sempre na janela, lado esquerdo na ida, lado direito na volta. Recentemente, indo até o mercado da pracinha, vi uma imagem que me fez abrir um sorriso. Eu vi um 434 cor de laranja. Tomada por um sentimento de nostalgia, eu me vi criança indo para o ballet, depois adolescente voltando da escola. Não vejo como indício de uma nova grande mudança, afinal continuamos a entrar pela porta dianteira, e nem há mais o cobrador. Mas me bateu uma esperança de, um dia, voltar a ver a cidade toda estampada, com seus ônibus coloridos.


Deborah O. Lins de Barros,
Rio de Janeiro, 22 de fevereiro de 2021.

Comentários

  1. Lindo texto! Lembro muito dos ônibus laranja que passavam pela teodoro e do 422 vermelho e branco. Outro dia acabei andando até a Edmundo rego e vi uma fila curiosamente no ponto do 434, bateu uma saudade de ver o rio pelas janelas dos busões, seu texto mexeu numa grande saudade do meu coração <3

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    1. Obrigada pelo comentário!!
      O 434 demora mas passa! Estou com saudade daquela curva para a esquerda quando ele vira da rua de Santana para a Pres. Vargas, na volta para o Grajaú 🙃

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  2. Nossa, essa experiência de memorizar - ou tentar fazê-lo - os números dos ônibus para mim tem nome: Rio de Janeiro. Dar um nome ao ônibus que é um número, é um nômero, é quase tê-lo íntimo, como uma conta que se sabe fazer de cabeça.

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    1. Obrigada pelo seu comentário!!
      Os ônibus são tão patrimônio da cidade quanto as praias!!! 😜

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